Monday, July 2, 2007

O macaco declamando - Bocage



O MACACO DECLAMANDO


Um mono, vendo-se um dia

Entre brutal multidão,

Dizem que lhe deu na cabeça

Fazer uma pregação.



Creio que seria o tema

Indigno de se tratar;

Mas isto pouco importava,

Porque o ponto era gritar.



Teve mil vivas, mil palmas,

Proferindo à boca cheia

Sentenças de quinze arrobas,

Palavras de légua e meia.



Isto acontece ao poeta,

Orador, e outros que tais;

Néscios o que entendem menos

E os que celebram mais...


MANUEL MARIA BARBOSA DU BOCAGE



« A amizade é um amor que não comunica

pelos sentidos ... Ramón C.y Campoosorio »




As Amoras - Sophia de Mello B. Andresen



AS AMORAS...


O meu país sabe às amoras bravas no

verão.

Ninguém ignora que não é grande,

nem inteligente, nem elegante o meu país,

mas tem esta voz doce de quem acorda

para cantar nas silvas.

Raramente falei do meu país, talvez nem

goste dele, mas quando um amigo me traz

amoras bravas os seus muros parecem-me

brancos, reparo também que no meu país

o céu é azul...


SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN


« Sede felizes; os amigos desaparecem quando

somos infelizes... Eurípedes! »

Sunday, July 1, 2007


Sardinhas e Lua - Altino M.do Tojal




SARDINHAS E LUA

O menino tinha faces terrosas e grandes olhos acesos.

Enquanto a mãe formigava longe, desentranhando o pregão, ele mantinha-se à

porta de casa, os pés unidos e as mãos nos joelhos, como um faraozinho.

Galinhas activas e cães tristes erravam pela calçada, gatos preguiçavam nos

telhados , o mulherio lavava roupa no tanque público. Mas, quando chovia,não

se viam lavadeiras, nem galinhas, nem gatos -- só um ou outro cão triste.

O empedrado reluzia friamente sob a chuva e o enxurro arrastava pela valeta,

diante do menino, esqueletos e cabeças de sardinha; também arrastava outras

imundícies, mas o que feria mais a atenção eram os despojos de sardinha.

Ao anoitecer, a mãe do menino regressava com o tabuleiro vazio.

-- Vendi as "sadinhas" todas, jóia! Todas! Só trago a tua -- dizia ela ao menino,

amorosamente, agachando-se para lhe dar a mão.

Sem dizer nada, o menino descolava o rabito da soleira fria e entrava em casa,

em passos curtinhos, pela enorme mão da mãe.

-- Vou já fritar a tua "sadinhinha" -- a mãe pousava o tabuleiro, acendia o

lume. -- Tens muita fome, jóia?

Não tardariam os homens grandes. O menino sabia; e olhava medrosamente

para a porta da rua, enquanto a mãe deixava escorrer um fio de azeite na

na sertã.

-- Tens muita fome, jóia?

Diante do lume, com a saia preta tremeluzente de escamas, a mãe parecia um

firmamento.

E o menino, numa lamúria, entre dois bocejos: -- Mãe, vamos numir...

Já os homens grande perpassavam lá fora, espreitando.

-- Pronto, jóia -- a mãe tirava, com o garfo, a sardinha da sertã.

-- Com pãozinho sim? Vê lá se te pelas!

Os homens grandes iam entrando, silenciosamente.

Trémulo, o menino soprava a sardinha jacente num tracalhaz de broa, para a

esfriar, e pedia: -- Mãe deixa-me tomer a sadinha lá fora...

E os homens grandes à espera, silenciosos, expelindo fumaças para o tecto.

Uma prisca saía voando, a piparote, logo morrendo em faúlas no escuro.

Pois sim, jóia; mas tem cuidado, não te calquem os pezinhos -- recomendava a

mãe. E entre beijos chilreados, à orelha do menino:

-- Eles hoje vão embora cedo, vais ver.

-- Sim, mãe.

E o menino, em passos curtinhos, ia sentar-se outra vez à soleira da porta, com

a sua sardinha no seu tracalhaz de broa. Antes de se aferrolhar no quarto com

o primeiro dos homens grandes, a mãe olhava risonhamente o menino e o

menino, semivoltado, olhava seriamente a mãe.

Mas logo da rua surgia um gato -- muito afoito, mesmo arrogante, cauda no

ar, a exigir.

-- Olá, miau!... -- dizia o menino ao gato, afagando-lhe o lombo veludíneo.

E dava-lhe da sua sardinha.

Depois, manquitando, acercava-se o cão -- tristonho, humilde, cauda entre as

patas, a suplicar .

-- Olá, ão-ão!... -- e, acariciando o focinho sofredor do cão, o menino dava-lhe

da sua sardinha.

Até que a Lua despontava, branca e gorda, no negrume dos telhados.

-- Olá, Luinha!... -- sorrindo, o menino oferecia à Lua o resto da sua sardinha

nas mãozitas estendidas, como num prato.

A Lua sorria também ao menino, que julgava ouvi-la dizer:

-- Tome tu, menino.

O que sossegava o menino. A Lua tinha as faces cheias e o menino tinha-as

cavadas. A Lua não era como ele, nem como o cão, nem como o gato. A Lua

devia comer muitas sardinhas.

Com a consciência tranquila, o menino punha-se a esbichar o resto da

sardinha, chupando gulosamente os dedos. No fim comeria o pão.

Erguia amiúde os olhos à Lua, já alta, e sorria-lhe. Eram muito amigos.

E lá ficava a sorrir-lhe, arrotando à sardinha, na frigem da soleira, cada vez

mais absorto, cada vez mais faraozinho.

Nem dava pelos homens grande que saíam, assim como nunca dectetava a

sapateta crescente dos que iam chegando. E um tacão crudelíssimo, um tacão

retardatário calcava invariavelmente os seus pezitos unidos, arroxeados, nus.

Que grito!...

E o menino chorava enquanto sentisse as dores deitando cuspe nos pezitos

-- único remédio que conhecia.

Vinha o cão -- tristonho, cabisbaixo, a manquitar -- e lambia-lhe os pezitos,

a cara reluzente de lágrimas, de novo os pezitos. Rebujando, o menino afagava

a contrapelo o cão que o lambia e olhava medrosamente para dentro, onde

alguns homens grandes estavam ainda à espera. Depois, água nos olhos,

sacudido por impos, fitava outra vez a Lua, numa queixa muda, até o último

dos homens grandes sair.

-- Anda, jóia vamos "numir" -- a mãe curvava-se para o menino, sem abotoar

a blusa, sem compor a cabeleira -- Viste como hoje foi depressa, viste?

O menino abraçava-a contente, triunfante; e, sobre aquele ombro morno,

dentado, nu, erguia um olharzito radioso à Lua, um último, para que a Lua

soubesse: -- Ele, o homem pequenino, iria "numir" toda a noite com a mãe!

Toda a noite!...

Mais tarde chovia; e a aguaça, correndo impetuosamente pela valeta,

arrastava consigo os despojos da sardinha, em promiscuidade com outras

imundícies.


ALTINO M. DO TOJAL