Monday, June 18, 2007


S/Título - EUGÉNIO DE ANDRADE !!

Estou contente, não devo nada à vida
e a vida deve-me apenas
dez réis de mel coado.
Estamos quites, assim.
o corpo já pode descansar: dia
após dia lavrou, semeou.
também colheu, e até
alguma coisa dissipou, o pobre.
pobríssimo animal,
agora de testículos aposentados.
Um dia destes vou me estender
debaixo da figueira, aquela
que vi exasperada e só, há muitos anos:
pertenço à mesma raça.
In Branco no Branco, 1984
EUGÉNIO DE ANDRADE
« Neste mundo, existem três espécies de amigos:
aqueles que nos amam, aqueles que não se
preocupam connosco, e os que nos odeiam »
Sébastien-Roch Chamfort

Saturday, June 16, 2007

Paraíso ...


PARAÍSO


Deixa ficar comigo a madrugada

Para que a luz do sol me não constranja.

Numa taça de sombra estilhaçada,

Deita sumo de lua e de laranja.



Arranja uma pianola, um disco, um posto,

Onde eu oiça o estretor de uma gaivota...

Crepite, em derredor, o mar de Agosto...

E o outro cheiro, o teu, à minha volta!



Depois podes partir. Só te aconselho

Que acendas, para tudo ser perfeito,

À cabeceira a luz do teu joelho,

Entre os lençóis o lume do teu peito...


Podes partir. De nada mais preciso

Para a minha ilusão do Paraíso.


DAVID MOURÃO FERREIRA

kyara


« O perigo do passado era que os homens se tornassem

escravos.

O perigo do futuro é que os homens se tornem autómatos

Erisch Fromm »