Wednesday, October 31, 2007

Poesia Inglesa II - Fernando Pessoa





Desperta com o sol, com a madrugada,

Desperta com o dia que aparece;

Sê como o orvalho e a luz recém-nascida

Mas, ao contrário deles, permanece.


II


As névoas se desprendem do que és;

Elas são só o que podemos ver.

Vem e entra nos nossos corações

E deixa aí a vida acontecer.


III


A manhã pertence ao mundo vazio;

Os homens aqui não chegam tão cedo.

Vem e deixa a vida desprender-se

Lenta, de ti, tal como o medo.


IV


E em teu ser terrível nada mais:

Apenas tu, sem corpo ou alma, assim.

Verte o teu bálsamos na fronte triste

E faz a esperança cumprir-se em mim !


Fernando Pessoa









Poema de Tradição Popular in Os Poetas Lusíadas






Chamaste-me tua vida,

Eu tua alma quero ser,

A vida acaba com a morte,

A alma não pode morrer.


II


O meu coração do teu

É muito ruim de apartar;

É como a alma do corpo,

Quando a morte a quer levar!


III


Já morri, já me enterrei !

E agora já estou aqui.

Nem a terra me comia

Sem eu me despedir de ti !


IV


Ó noite que vais crescendo,

Tão cheia de escuridão,

Tu és a flor mais bela

Dentro do meu coração !


Os Poetas Lusíadas

Cancioneiro Popular - in Os Poetas Lusíadas







Esta Noite choveu oiro

Diamantes orvalhou

Lá vem o sol com seus raios

Enxugar quem alagou.


II


A raiz da faia forte

A terra vai aluindo;

Vosso corpo vai crescendo,

Vossas feições vão abrindo.


III


Já chove água das nascentes

Já correm os regatinhos;

Já os campos são contentes,

Já cantam os passarinhos.


Os Poetas Lusíadas













Tuesday, October 30, 2007

Fernando Pessoa




Isto* - Fernando Pessoa






Dizem que finjo ou minto

Tudo o que escrevo. Não.

Eu simplesmente sinto

Com a imaginação.

Não uso o coração.


II


Tudo o que sonho ou passo,

O que me falha ou finda,

É como que um terraço

Sobre outra coisa ainda.

Essa coisa é que é linda.


III


Por isso escrevo em meio

Do que não está ao pé,

Livre do meu enleio,

Sério do que não é.

Sentir? Sinta quem lê!


Fernando Pessoa

Liberdade - Fernando Pessoa





Ai que prazer

Não cumprir um dever,

Ter um livro para ler

E não o fazer.

Ler é maçada.

Estudar é nada.

O sol doira

Sem literatura.

O rio corre, bem ou mal,

Sem edição original.

E a brisa, essa,

De tão naturalmente matinal,

Como o tempo não tem pressa...


II


Livros são papéis pintados com tinta.

Estudar é uma coisa que está indistinta

A distinção entre nada e coisa nenhuma

Quanto é melhor, quando há bruma,

Esperar por D. Sebastião,

Quer venha ou não!


III


Grande é a poesia a bondade e as danças...

Mas o melhor do mundo são as crianças,

Flores, música o luar, e o sol, que peca

Só quando, em vez de criar, seca

O mais do que isto

É Jesus Cristo

Que não sabia nada de finanças

Nem consta que tivesse biblioteca...


Fernando Pessoa