Sunday, May 18, 2008

cançao de embalar - zeca afonso

Encantadora canção de Zeca Afonso que nos deixou imensa saudade.

Thursday, April 24, 2008

Poesia - FERNANDO PESSOA








Ao longe, ao luar,

No rio uma vela

Serena a passar

Que é que me revela?


II

Não sei, mas meu ser

Tornou-se-me estranho,

E eu sonho sem ver

Os sonhos que tenho.


III

Que angustia me enlaça?

Que amor não se explica?

É a vela que passa

Na noite que fica...


FERNANDO PESSOA

Monday, April 7, 2008

Aurora - Adolfo Casais Monteiro



AURORA

I

A poesia não é voz -- é uma inflexão.

Dizer, diz tudo a prosa. No verso

nada se acrescenta a nada, somente

um jeito impalpável dá figura

ao sonho de cada um, expectativa

das formas por achar. No verso nasce

à palavra uma verdade que não acha

entre os escombros da prosa o seu caminho.

E aos homens um sentido que não há

nos gestos nem nas coisas:


II

vôo sem pássaro dentro.


ADOLFO CASAIS MONTEIRO

Friday, February 29, 2008

Da minha Janela - Florbela Espanca




Mar alto! Ondas quebradas e vencidas

Num soluçar aflito e murmurado...

Ovo de gaivotas, leve, imaculado,

Como neves nos píncaros nascidas!


II

Sol! Ave a tombar, asas já feridas,

Batendo ainda num arfar pausado...

Ó meu doce poente torturado

Rezo-te em mim, chorando, mãos erguidas!


III

Meu verso de Samain cheio de graça,

Inda não és clarão já és luar

Como branco lilás que se desfaça!


IV

Amor! Teu coração trago-o no peito...

Pulsa dentro de mim como este mar

Num beijo eterno, assim, nunca desfeito!...


Florbela Espanca

Saturday, February 9, 2008

Mar Manhã - Fernando Pessoa


Suavemente grande avança

Cheia de sol a onda do mar;

Pausadamente se balança,

E desce como a descançar


II

Tão lenta e longa que parece

De uma criança de Titã

O glauco seio que adormece,

Arfando à brisa da manhã.


III

Parece ser um ente apenas

Este correr da onda do mar,

Como como uma cobra que em serenas

Dobras se alongue a colear.


IV

Unido e vasto e interminável

Não são sossego azul do sol,

Arfa com um mover-se estável

O oceano ébrio de arrebol.


V

E a minha sensação é nula,

Quer de prazer, quer de pesar...

Ébria de alheia a mim ondula

Na onda lúcida do mar.


FERNANDO PESSOA




Tuesday, February 5, 2008

Cecília Meireles


Venturoso Sonhar-te - Cecília Meireles

Venturosa de sonhar-te,
à minha sombra me deito.
(Teu rosto, por toda a parte,
mas, amor, só no meu peito!)
II
- Barqueiro, que céu tão leve!
Barqueiro, que mar parado!
Barqueiro, que enigma breve,
o sonho de ter amado!
III
Em barca de nuvem sigo:
e o que vou pagando ao vento
para levar-te comigo
é suspiro e pensamento.
IV
- Barqueiro, que doce instante!
Barqueiro, que instante imenso,
não do amado nem do amante:
mas de amar o amor que penso!
Cecília Meireles