Monday, February 9, 2009

Se -- Sophia de Mello Breyner Andresen







« Se

Se tanto me dói que as coisas passem

É porque cada instante em mim foi vivo

Na luta por um bem definitivo.

Em que as coisas do amor se eternizassem


Sophia de Mello Breyner Andresen »


Libertação - Miguel Torga





Libertação


Vem camarada, vem

Render-me neste sonho de beleza!

Vem olhar de outro modo a natureza

E cantá-la também!


II


Ergue o teu coração como ninguém;

Fala doutro luar, doutra pureza;

Tens outra humanidade, outra certeza:

Leva a chama da vida mais além!


III


Até onde podia, caminhei,

Vi a lama da terra que pisei

E cobri-a de versos e de espanto.


IV


Mas, se o facho é maior na tua mão,

Vem, camarada irmão,

Erguer sobre os meus versos o teu canto.


Miguel Torga

Fernando Pessoa








Passa uma borboleta por diante de mim

E pela primeira vez no Universo eu reparo

Que as borboletas não têm cor nem movimento.

Assim como as flores não têm perfume nem cor.

A cor é que tem a cor nas asas da borboleta.

No movimento da borboleta o movimento é que se move,

O perfume é que tem perfume no perfume da flor.

A borboleta é apenas borboleta

E a flor é apenas flor...


Fernando Pessoa



Monday, February 2, 2009

Miguel Torga




Miguel Torga


Não, Não tenho limites

Quero de tudo

Tudo.

O ramo que sacudo

Fica varejado.

Já nascido em pecado,

Todos os meus pecados são mortais.

Todos tão naturais

À minha condição,

Que quando por excepção,

Os não pratico

É que me mortifico.

Alma perdida

Antes de se perder,

Sou uma fome incontida

De viver.

E o que redime a vida

É ela não caber

Em nenhuma bebida!


*-*-*


Thursday, January 29, 2009

Guerra Civil - Miguel Torga




GUERRA CIVIL


É contra mim que luto.

Não tenho outro inimigo.

O que penso,

O que sinto,

O que digo

E, o que faço,

É que pede castigo

E desespera a lança no meu braço.


***


Absurda aliança

De criança

E adulto,

O que sou é um insulto

Ao que não sou;

E combato esse vulto

Que à traição me invadiu e me ocupou.


Miguel Torga





ana/eu!


Saturday, January 24, 2009

Quase um poema de amor - Miguel Torga









QUASE UM POEMA DE AMOR!


Há muito tempo que já não escrevo um poema,

De amor,

E é o que que eu sei fazer com mais delicadeza!

A nossa natureza

Lusitana

Tem essa humana

Graça

Feiticeira

De tornar de cristal

A mais sentimental

E baça

Bebedeira


***


Mas ou seja que vou envelhecendo

E ninguém me deseje apaixonado,

Ou que a antiga paixão

Me mantenha calado

O coração

Num íntimo pudor,

- Há muito tempo já que não escrevo

um poema

De amor...


Miguel Torga






Alentejo - Miguel Torga






ALENTEJO


A luz que te ilumina,

Terra da cor dos olhos de quem olha!

A paz que se adivinha

Na tua solidão

Que nenhuma mesquinha condição

Pode compreender e povoar!

O mistério da tua imensidão

Onde o tempo caminha

Sem chegar!...


Miguel Torga