Tuesday, January 20, 2009

Eugénio de Andrade





Pseudónimo de José Fontinhas Rato

Poeta português nascido na freguesia de

Póvoa de Atalaia (Fundão) em 19 de

Janeiro de 1923.

Faleceu a 13/Junho de 2005, no Porto

após doença neurológica prolongada.





« Passamos pelas coisas sem as ver,

gastos, como animais envelhecidos:

Se alguém chama por nós não respondemos,

se alguém nos pede amor não estremecemos,

como frutos de sombra sem sabor,

vamos caindo ao chão, apodrecidos... »


Eugénio de Andrade






ana/eu!



Sunday, January 18, 2009

Poema de Francisco Bulhão






Que a tesoura corta

E, na tarde quente,

Junho está à porta.


II


Um halo de neve

Espuma ou algodão,

Envolve de leve

Ás reses no chão.


III


Na luz forte, em roda,

Zumbem as abelhas.

E há balidos soltos

E tristes, de ovelhas.


IV


E ao soltar aquelas

Livres, já, dos veios,

Parecem gazelas,

Em saltos singelos.


V


Rente, rente, rente,

A tesoura corta.

E, na tarde quente,

Junho está à porta!


***

Francisco Bugalho




ana/eu!

Soneto - António Gedeão






SONETO


Não pode Amor por mais que as falas mude

exprimir quanto pesa ou quando mede.

Se acaso a comoção falar concede

é tão mesquinho o tom que o desilude.


II


Busca no rosto a cor que mais o ajude,

magoado parecer aos olhos pede,

pois quando fala a tudo o mais excede

não pode ser Amor com tal virtude.


III


Também eu das palavras me arreceio,

também sofro do mal sem saber onde

busque a expessão maior do meu anseio.


IV


E acaso perde, o Amor que a fala esconde,

em verdade, em beleza, em doce enleio?

Olha bem meus olhos, e responde...


***

António Gedeão







ana/eu!



Saturday, January 17, 2009

Vem Vento, Varre... Adolfo C.Monteiro





Vem vento, varre

sonhos e mortos.

Vem vento, varre

medos e culpas.

Quer seja dia,

quer faça treva,

varre sem pena,

leva adiante

paz e sossego,

leva contigo

nocturnas preces,

presságios fúnebres,

pávidos rostos

só covardia.

Que fique apenas

erecto e duro

o tronco estreme

de raiz funda.

Leva a doçura,

se for preciso:

ao canto fundo

basta o que basta.

Vem vento, varre!
Adolfo Casais Monteiro
ana/eu!




Friday, January 16, 2009

Lágrima de Preta - António Gedeão






LÁGRIMA DE PRETA
Encontrei uma preta
que estava a chorar,
pedi-lhe uma lágrima
para analisar.
II
Recolhi a lágrima
Com todo o cuidado
num tubo de ensaio
bem esterilizado.
III
Olhei-a de um lado,
do outro e de frente:
tinha um ar de gota
muito transparente.
IV
Mandei vir os ácidos,
as bases e os sais,
as drogas usadas
em casos que tais.
V
Ensaiei o frio,
experimentei ao lume,
de todas as vezes
deu-me o que é costume:
VI
nem sinais de negro,
nem vestígios de ódio.
Água (quase tudo)
e cloreto de sódio.
António Gedeão

Monday, September 15, 2008

CORPO RENASCIDO - MANUEL ALEGRE






Corpo renascido

canção.

Toco-te e respiras

sangue do meu sangue.


II

Cantando é como se dissesse: estou aqui.

Cantando eu nego o que me nega

acto de amor

coração perpendicular ao tempo.


III

Cantando é como se dissesse: estou aqui

na multidão que está dentro de mim.

Recuso a morte cantando

recuso a solidão.


IV

Canção casa do mundo

viagem do homem para o homem

meu pedaço de pão rosa de maio

criança a rir na madrugada.


V

Cavalos correm nos teus campos

crinas ao vento

são os cavalos indomáveis que te levam

aos quatro cantos do mundo.


VI

Lá onde um homem tiver sede

levarás teus cântaros

lá onde um homem tiver fome

levarás teu pão.


VII

Lá onde a liberdade foi assassinada

os teus cavalos livres levarás

e a espada refulgente

levarás ao teu sol canção.


VIII

Folha a folha desfolhada

folha a folha renascida

assim tu és canção:

viagem do homem para o homem.


MANUEL ALEGRE